terça-feira, 3 de março de 2015

Ídolos: carecemos mesmo?


Pobre da sociedade que precisa de ídolos para evoluir.

Precisamos sim de consciência política. Precisamos sim, e muito, de nos tornarmos cidadãos, na plenitude do significado. Urge que cumpramos nossos deveres e, na mesma proporção, cobremos nossos direitos de cidadãos.

Vivenciamos dois casos emblemáticos recentemente. Joaquim Barbosa, e logo depois Sérgio Moro foram elevados à condição de ídolos salvadores da Pátria. A bola da vez, como sugeriram ontem alguns manifestantes, será Rodrigo Janot? Ou daqui a poucos dias, Teori Zavascki?

A grande mídia nos dirá.

A falta de consciência política da sociedade promove aberrações desse tipo.

Ao transformá-los e como ídolos conferimos a eles - incentivados em faina diuturna por uma imprensa pautada por interesses próprios e de seus representados - um poder excedente, uma falsa sensação de que são absolutos e inquestionáveis.

Sem medo de exagerar, recriamos os inquisidores.

O que se espera desses senhores, servidores públicos, e deles devemos cobrar, é que exerçam - e apenas isso - a função para a qual foram designados. E sempre com o mais elevado espírito republicano e respeito incondicional à Constituição.

Nada mais.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A Rede Globo e a greve de caminhoneiros que paralisou o Chile

Em 1972 uma grande greve de caminhoneiros paralisou o Chile, provocou desabastecimento e fez parte do plano americano de derrubar o governo, o que foi comprovado posteriormente por documentos da própria CIA revelados pelo WikiLeaks.
         

“E o Congestionamento não é só nas estradas”, foi a frase de Alexandre Garcia hoje pela manhã (25/02)no tal Bom Dia Brasil. Na continuidade, pra não variar do script da mídia e da Globo, tome pau nos políticos e no governo e uma ampla cobertura da Greve, como nunca se vê em nenhuma outra greve. Greves e paralisações são direito de todos os trabalhadores. No geral, patrões tentam impedir a greve a qualquer custo, pois as empresas perdem dinheiro. No caso desta greve em andamento não vi nenhum empresário do transporte falando contra a greve. Por outro lado, a mesma mídia que cobre tão ciosamente esta greve, continua também criando a cada dia noticias negativas que chegam a provocar náuseas. Apesar do Governo Federal chamar caminhoneiros e donos de empresa de transporte para conversar, a greve com fechamento de estradas e consequente desabastecimento em cidades e regiões, continuava hoje pela manhã.

Não foi diferente em 1972 no Chile.

Em outubro de 1972, durante o governo socialista de Salvador Allende, os EUA financiaram uma greve de caminhoneiros que paralisou o país. Amplamente apoiada pela mídia conservadora, a greve causou prejuízos estimados em um milhão de dólares e abriu caminho para o golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende no ano seguinte. Essa é uma das velhas táticas fomentadas pela CIA para desestabilizar governos populares em todo o mundo.

O menor índice de desemprego da história, salário mínimo que subiu 75% acima da inflação nos 12 anos do governo do PT, salário médio subindo acima da inflação, milhões de pessoas que saíram da pobreza, isto é a foto do Brasil em dezembro de 2014. Mas a mídia continua anunciando supostas tragédias econômicas. Agora mesmo, quando escrevo este artigo, a TV noticia o “rebaixamento” da Petrobras feito por uma tal Agência Moody‘s. No mínimo estranho, quando as ações da Petrobras e o preço do Petróleo sobem no mundo inteiro.

O Golpe continua em marcha e vem eivado de mentiras que são repetidas milhares e milhares de vezes, fazendo com que virem verdade no senso comum. A Globo, a mídia tupiniquim estão pavimentando o caminho para o golpe definitivo na democracia. Se não houver respostas rápidas e a altura, o golpe virá e é só uma questão de tempo.

A resposta a altura esta na comunicação do Governo e na mobilização dos movimentos sociais verdadeiros para defender as conquistas que tivemos nestes últimos anos. Isto é defender a democracia. E foi democraticamente que o governo Dilma foi eleito.

Por isto é muito positivo que os movimentos sociais tenham compreendido o que realmente esta em jogo.

Luiz Muller - Página 64

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Poder judiciário


Houve um tempo em que conhecer juízes de direito só era possível em duas situações: pela proximidade (vizinho, parente ou amigo) de um, e; ser julgado por um. Mas, deram-lhes holofotes: luz, câmera, ação!

Não tenho absolutamente nada contra o estrelato, mas, convenhamos, o povo brasileiro agradeceria muito se os nossos ilustres togados se ativessem mais ao ofício e menos ao umbigo e às lentes.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Santyana: A Petrobras não é uma empresa, é uma Nação.

lulaget

Para ler de pé, em voz alta, para mandar para os amigos, os parentes, a todos aqueles que conseguem ir mais fundo que os cinco centímetros da histeria pseudo-moralista, que não consegue entender o que, dramaticamente, está em jogo:


Quanto vale a Petrobras?

Mauro Santayana
O adiamento do balanço da Petrobras do terceiro trimestre do ano passado foi um equívoco estratégico da direção da companhia, cada vez mais vulnerável à pressão que vem recebendo de todos os lados, que deveria, desde o início do processo, ter afirmado que só faria a baixa contábil dos eventuais prejuízos com a corrupção, depois que eles tivessem, um a um, sua apuração concluída, com o avanço das investigações.
A divulgação do balanço há poucos dias, sem números que não deveriam ter sido prometidos, levou a nova queda no preço das ações.
E, naturalmente, a novas reações iradas e estapafúrdias, com mais especulação sobre qual seria o valor — subjetivo, sujeito a flutuação, como o de toda empresa de capital aberto presente em bolsa — da Petrobras, e o aumento dos ataques por parte dos que pretendem aproveitar o que está ocorrendo para destruir a empresa — incluindo hienas de outros países, vide as últimas idiotices do Financial Times – que adorariam estraçalhar e dividir, entre baba e dentes, os eventuais despojos de uma das maiores empresas petrolíferas do mundo.
O que importa mais na Petrobras?
O valor das ações, espremido também por uma campanha que vai muito além da intenção de sanear a empresa e combater eventuais casos de corrupção e que inclui de apelos, nas redes sociais, para que consumidores deixem de abastecer seus carros nos postos BR; à aberta torcida para que “ela quebre, para acabar com o governo”; ou para que seja privatizada, de preferência, com a entrega de seu controle para estrangeiros, para que se possa — como afirmou um internauta — “pagar um real por litro de gasolina, como nos EUA”?
Para quem investe em bolsa, o valor da Petrobras se mede em dólares, ou em reais, pela cotação do momento, e muitos especuladores estão fazendo fortunas, dentro e fora do Brasil, da noite para o dia, com a flutuação dos títulos derivada, também, da campanha antinacional em curso, refletida no clima de “terrorismo” e no desejo de “jogar gasolina na fogueira”, que tomou conta dos espaços mais conservadores — para não dizer golpistas, fascistas, até mesmo por conivência — da internet.
Para os patriotas – e ainda os há, graças a Deus – o que importa mais, na Petrobras, é seu valor intrínseco, simbólico, permanente, e intangível, e o seu papel estratégico para o desenvolvimento e o fortalecimento do Brasil.
Quanto vale a luta, a coragem, a determinação, daqueles que, em nossa geração, foram para as ruas e para a prisão, e apanharam de cassetete e bombas de gás, para exigir a criação de uma empresa nacional voltada para a exploração de uma das maiores riquezas econômicas e estratégicas da época, em um momento em que todos diziam que não havia petróleo no Brasil, e que, se houvesse, não teríamos, atrasados e subdesenvolvidos que “somos”, condições técnicas de explorá-lo?
Quanto vale a formação, ao longo de décadas, de uma equipe de 86.000 funcionários, trabalhadores, técnicos e engenheiros, em um dos segmentos mais complexos da atuação humana?
Quanto vale a luta, o trabalho, a coragem, a determinação daqueles, que, não tendo achado petróleo em grande quantidade em terra, foram buscá-lo no mar, batendo sucessivos recordes de poços mais profundos do planeta; criaram soluções, “know-how”, conhecimento; transformaram a Petrobras na primeira referência no campo da exploração de petróleo a centenas, milhares de metros de profundidade; a dezenas, centenas de quilômetros da costa; e na mais premiada empresa da história da OTC – Offshore Technology Conferences, o “Oscar” tecnológico da exploração de petróleo em alto mar, que se realiza a cada dois anos, na cidade de Houston, no Texas, nos Estados Unidos?
Quanto vale a luta, a coragem, a determinação, daqueles que, ao longo da história da maior empresa brasileira — condição que ultrapassa em muito, seu eventual valor de “mercado” — enfrentaram todas as ameaças à sua desnacionalização, incluindo a ignominiosa tentativa de alterar seu nome, retirando-lhe a condição de brasileira, mudando-o para “Petrobrax”, durante a tragédia privatista e “entreguista” dos anos 1990?
Quanto vale uma companhia presente em 17 países, que provou o seu valor, na descoberta e exploração de óleo e gás, dos campos do Oriente Médio ao Mar Cáspio, da costa africana às águas norte-americanas do Golfo do México?
Quanto vale uma empresa que reuniu à sua volta, no Brasil, uma das maiores estruturas do mundo em Pesquisa e Desenvolvimento, no Rio de Janeiro, trazendo para cá os principais laboratórios, fora de seus países de origem, de algumas das mais avançadas empresas do planeta?
Por que enquanto virou moda — nas redes sociais e fora da internet — mostrar desprezo, ódio e descrédito pela Petrobras, as mais importantes empresas mundiais de tecnologia seguem acreditando nela, e querem desenvolver e desbravar, junto com a maior empresa brasileira, as novas fronteiras da tecnologia de exploração de óleo e gás em águas profundas?
Por que em novembro de 2014, há apenas pouco mais de três meses, portanto, a General Electric inaugurou, no Rio de Janeiro, com um investimento de 1 bilhão de reais, o seu Centro Global de Inovação, junto a outras empresas que já trouxeram seus principais laboratórios para perto da Petrobras, como a BG, a Schlumberger, a Halliburton, a FMC, a Siemens, a Baker Hughes, a Tenaris Confab, a EMC2 a V&M e a Statoil?
Quanto vale o fato de a Petrobras ser a maior empresa da América Latina, e a de maior lucro em 2013 — mais de 10 bilhões de dólares — enquanto a PEMEX mexicana, por exemplo, teve um prejuízo de mais de 12 bilhões de dólares no mesmo período?
Quanto vale o fato de a Petrobras ter ultrapassado, no terceiro trimestre de 2014, a Exonn norte-americana como a maior produtora de petróleo do mundo, entre as maiores companhias petrolíferas mundiais de capital aberto?
É preciso tomar cuidado com a desconstrução artificial, rasteira, e odiosa, da Petrobras e com a especulação com suas potenciais perdas no âmbito da corrupção, especulação esta que não é apenas econômica, mas também política.
A Petrobras teve um faturamento de 305 bilhões de reais em 2013, investe mais de 100 bilhões de reais por ano, opera uma frota de 326 navios, tem 35.000 quilômetros de dutos, mais de 17 bilhões de barris em reservas, 15 refinarias e 134 plataformas de produção de gás e de petróleo.
É óbvio que uma empresa de energia com essa dimensão e complexidade, que, além dessas áreas, atua também com termoeletricidade, biodiesel, fertilizantes e etanol, só poderia lançar em balanço eventuais prejuízos com o desvio de recursos por corrupção, à medida que esses desvios ou prejuízos fossem “quantificados” sem sombra de dúvida, para depois ser — como diz o “mercado” — “precificados”, um por um, e não por atacado, com números aleatórios, multiplicados até quase o infinito, como tem ocorrido até agora.
As cifras estratosféricas (de 10 a dezenas de bilhões de reais), que contrastam com o dinheiro efetivamente descoberto e desviado para o exterior até agora, e enchem a boca de “analistas”, ao falar dos prejuízos, sem citar fatos ou documentos que as justifiquem, lembram o caso do “Mensalão”.
Naquela época, adversários dos envolvidos cansaram-se de repetir, na imprensa e fora dela, ao longo de meses a fio, tratar-se a denúncia de Roberto Jefferson, depois de ter um apaniguado filmado roubando nos Correios, de o “maior escândalo da história da República”, bordão esse que voltou a ser utilizado maciçamente, agora, no caso da Petrobras.
Em dezembro de 2014, um estudo feito pelo instituto Avante Brasil, que, com certeza não defende a “situação”, levantou os 31 maiores escândalos de corrupção dos últimos 20 anos.
Nesse estudo, o “mensalão” — o nacional, não o “mineiro” — acabou ficando em décimo-oitavo lugar no ranking, tendo envolvido menos da metade dos recursos do “trensalão” tucano de São Paulo e uma parcela duzentas vezes menor que a cifra relacionada ao escândalo do Banestado, ocorrido durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso, que, em primeiríssimo lugar, envolveu, segundo o levantamento, em valores atualizados, aproximadamente 60 bilhões de reais.
E ninguém, absolutamente ninguém, que dizia ser o mensalão o maior dos escândalos da história do Brasil, tomou a iniciativa de tocar, sequer, no tema — apesar do “doleiro” do caso Petrobras, Alberto Youssef, ser o mesmo do caso Banestado — até agora.
Os problemas derivados da queda da cotação do preço internacional do petróleo não são de responsabilidade da Petrobras e afetam igualmente suas principais concorrentes.
Eles advém da decisão tomada pela Arábia Saudita de tentar quebrar a indústria de extração de óleo de xisto nos Estados Unidos, aumentando a oferta saudita e diminuindo a cotação do produto no mercado global.
Como o petróleo extraído pela Petrobras destina-se à produção de combustíveis para o próprio mercado brasileiro, que deve aumentar com a entrada em produção de novas refinarias, como a Abreu e Lima; ou para a “troca” por petróleo de outra graduação, com outros países, a empresa deverá ser menos prejudicada por esse processo.
A produção de petróleo da companhia está aumentando, e também as descobertas, que já somam várias depois da eclosão do escândalo.
E, mesmo que houvesse prejuízo — e não há — na extração de petróleo do pré-sal, que já passa de 500.000 barris por dia, ainda assim valeria a pena para o país, pelo efeito multiplicador das atividades da empresa, que garante, com a política de conteúdo nacional mínimo, milhares de empregos qualificados na construção naval, na indústria de equipamentos, na siderurgia, na metalurgia, na tecnologia.
A Petrobras foi, é e será, com todos os seus problemas, um instrumento de fundamental importância estratégica para o desenvolvimento nacional, e especialmente para os estados onde tem maior atuação, como é o caso do Rio de Janeiro.
Em vez de acabar com ela, como muitos gostariam, o que o Brasil precisaria é ter duas, três, quatro, cinco Petrobras.
É necessário punir os ladrões que a assaltaram?
Ninguém duvida disso.
Mas é preciso lembrar, também, uma verdade cristalina.
A Petrobras não é apenas uma empresa.
Ela é uma Nação.
Um conceito.
Uma bandeira.
E por isso, seu valor é tão grande, incomensurável, insubstituível.
Esta é a crença que impulsiona os que a defendem.
E, sem dúvida alguma, também, a abjeta motivação que está por trás dos canalhas que pretendem destruí-la.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O Caso Banestado, a Petrobras e o feitiço do tempo

A Lava Jato tem ligação com o Caso Banestado mais do que se possa imaginar. Caso se tivesse ido até as últimas consequências, a situação poderia ser outra.


“Foi o maior roubo de dinheiro público que eu já vi”. A declaração do deputado federal oposicionista Fernando Francischini, do PSDB, não é sobre a Petrobras, ou o que a mídia convencionou chamar de Mensalão, mas sobre o Escândalo do Banestado (Banco do Estado do Paraná). O Banestado, por meio de contas CC5, facilitou a evasão de divisas do Brasil para paraísos fiscais, entre 1996 e 2002, na ordem de R$ 150 bilhões. O caso se transformou em na CPMI do Banestado, em 2003, da qual fui integrante em meu primeiro mandato.


Foi uma longa investigação que resultou no relatório final com pedidos de indiciamento de 91 pessoas pelo envio irregular de dinheiro a paraísos fiscais, dentre eles o ex-presidente do Banco Central do governo FHC, Gustavo Franco, o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta, Ricardo Sérgio de Oliveira, que foi arrecadador de fundos para campanhas de FHC e José Serra, funcionários do Banestado, doleiros e empresários.
Na época da CPMI, o presidente da comissão, o então senador tucano Antero Paes de Barros, encerrou os trabalhos da CPMI antes que o relatório fosse apresentado. O motivo principal era poupar seus pares, sobretudo Gustavo Franco e Ricardo Sérgio de Oliveira. A ação do PSDB para soterrar o relatório tinha como objetivo impedir que a sociedade tomasse conhecimento de um amplo esquema de desvios de recursos públicos, sobretudo vindos das privatizações do período FHC, para contas em paraísos fiscais. A história que não saiu na mídia está contada no livro “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Jr., lançado em 2011.

O desfecho das investigações levadas adiante pela Polícia Federal e mesmo de parte do Ministério Público Federal morreu na praia. Algumas pessoas, é verdade, foram condenadas, mas só laranjas, gente muito pequena perto do enorme esquema de corrupção.

O enredo do Banestado parece semelhante ao caso Petrobras, mas tem uma diferença: neste momento há uma determinação da presidenta Dilma em não deixar “pedra sobre pedra” sobre o caso da petrolífera, algo que não aconteceu no governo FHC - o Procurador da República na gestão tucana, Geraldo Brindeiro, mesmo sabendo dos malfeitos desde 1998, só decidiu pela abertura de processo quando estava de saída, no apagar das luzes da gestão tucana e pressionado pela abertura de uma CPMI.

A importância de o governo federal demonstrar empenho para que tudo fique esclarecido é determinante para se erradicar um mecanismo perverso de desvios de dinheiro público, de relações entre a iniciativa privada e o universo político e que determina, inclusive o perfil dos eleitos, principalmente no Congresso Nacional.

A Operação Lava Jato tem ligação com o Caso Banestado mais do que se possa imaginar. Se no caso Banestado se tivesse ido até as últimas consequências, provavelmente estaríamos hoje em outro patamar. As condenações necessárias a políticos, grandes empresários e doleiros, teria evitado a dilapidação de recursos públicos em todas as instâncias. A impunidade amplia os limites de corruptos e corruptores. Basta lembrar do esquema de licitação fraudulenta dos metrôs e trens de São Paulo, que atravessou mais de uma década de governos do PSDB, e a ausência de investigação e punição para entender do que estamos falando.

Os personagens do enredo da Lava Jato remetem, não por acaso, a muitos do Banestado, inclusive Alberto Youssef, que conseguiu não responder pelos crimes de corrupção ativa e de participação em gestão fraudulenta de instituição financeira (Banestado), por acordo, com MPF de delação premiada, em 2004.
Youssef entregou o que quis e continuou sua vida criminal sem ser incomodado até este ano, quando o juiz federal Sérgio Fernando Moro, responsável pelas prisões da Operação Lava Jato – este também outro personagem coincidente com Banestado, resolveu que o doleiro cumpriria quatro anos e quatro meses de cadeia, por uma sentença transitada em julgado.
“Após a quebra do acordo de delação premiada, este Juízo decretou, a pedido do MPF, a prisão preventiva de Alberto Youssef em decisão de 23/05/2014 no processo 2009.7000019131-5 (decisão de 23/05/2014 naqueles autos, cópia no evento 1, auto2)”, diz o despacho de Sergio Moro, datado de 17 de setembro deste ano. (ver mais em http://jornalggn.com.br/sites/default/files/documentos/acao_penal_no_5035707_sentenca_youssef.pdf).

Além de Youssef, do juiz Sérgio Moro, as operações de investigação do Banestado e da Lava Jato tem como lugar comum o Paraná. Apesar do Banestado ter sido privatizado, Youssef e outros encontraram caminhos que drenaram recursos públicos para paraísos fiscais a partir de lá.

Se no caso Banestado foram remetidos R$ 150 bilhões de recursos públicos adquiridos nas privatizações da era FHC para contas fantasmas em paraísos fiscais, na Petrobrás a estimativa da Polícia Federal até o momento é que tenham sido desviados R$ 10 bilhões.

Importante ressaltar que pouco importa os valores. A verdade é que estamos pagando uma conta do passado, em que parte das instituições fez corpo mole e deixou crimes dessa natureza prescreverem. Essa omissão (deliberada ou não) nos trouxe até aqui. Não por acaso, Alberto Youssef está de novo em cena. Sua punição no caso Banestado foi extinta em 2004 e quando revogada, neste ano, foi apenas para que MPF e Judiciário não passassem recibo de seus erros anteriores. Deram um benefício a alguém que mentiu e continuou sua trajetória criminosa.

Por isso tudo é admirável a disposição da presidenta Dilma, em encarar um esquema que mistura grandes empresários multinacionais, políticos e criminosos de porte. Afinal, que ninguém se iluda: numa dessas pontas tem o narcotráfico, o tráfico internacional de armas e toda ordem de ilícitos que se alimenta e retroalimenta a lavagem de dinheiro.

Dito isso, acho importante destacar o que é fundamental ser feito a partir da Operação Lava Jato:

1- Apoiar todas as ações que visam investigar, julgar e condenar corruptos e corruptores;

2- Constatar que as investigações comprovam que o financiamento empresarial das campanhas eleitorais, supostamente baseado em doações de empresas privadas, na verdade está apoiada, ao menos parcialmente, em desvio de recursos públicos;

3- Que portanto, para além de atos criminosos, estamos diante de um mecanismo sistêmico que corrompe cotidianamente as liberdades democráticas, pois no lugar do voto cidadão o financiamento privado reintroduz de fato o voto censitário;

4- Que este é mais um motivo para apoiarmos a reforma política, especialmente a proibição de todo e qualquer financiamento empresarial;

5- Por fim, conclamar os funcionários das empresas corruptoras a virem a público contar o que sabem, para que se possa colaborar com a Justiça. E vigiar para que as instituições envolvidas não se deixem manipular, no processo de investigação e julgamento, pelos mesmos interesses políticos e empresariais que se faz necessário punir.

Todo o Brasil sabe, afinal, que a corrupção institucionalizada esteve presente na história do Brasil, nos períodos democráticos e especialmente nos períodos ditatoriais. O desafio proposto pela presidenta Dilma, de não deixar “pedra sobre pedra” é imenso e depende das instituições cumprirem o seu dever.

O que Dilma quer, o que eu quero e toda a sociedade brasileira deseja é não ver a repetição dessa história e seus velhos personagens livres para reprisar o mesmo roteiro policial. Concordo com a frase do deputado oposicionista Francischini, que o Banestado foi o maior escândalo de corrupção de que se teve notícia no país.
Portanto, tenhamos memória e que ela não seja seletiva e nem refém do feitiço do tempo.
 

(*) Iriny Lopes Deputada federal (PT/ES)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Argumentos sim, ofensas não.


Por sexagenário, acompanho e participo das discussões políticas há muitos anos. Mesmo subtraindo o período da ditadura, é tempo demais. Desde UDN e PSD, eu era um quase adolescente que presenciava calorosos embates no seio familiar.

Vieram os militares e a minha geração foi privada de uma vida política mais atuante. O tempo passou e dentro da universidade, na década de 1970, pude retomar esse caminho. 

A luta era incansável e desigual. O exército nas ruas. Mortos e desaparecidos. Perseguições. Tortura.

No final daquela década eclodiram as greves puxadas pelo ABC paulista. Surgiu o Partido dos Trabalhadores. Pressionados, os militares começavam a emitir sinais de transição. Veio o “Diretas já”. Tancredo foi eleito pelo voto indireto e a sua morte empossou Sarney. Depois tivemos o Collor, o impeachment, Itamar, FHC, Lula e Dilma.

Estamos ainda aprendendo sobre democracia. Aprendendo a fazer e a viver sob democracia. O processo é mesmo longo e árduo.

Quem não viveu sob o regime militar não consegue dimensionar o grau de dificuldade que se enfrentou. E se hoje temos total liberdade para expor nossas opiniões e fazer nossas escolhas, é porque existiram pessoas engajadas, com suas ideias e seus ideais. Com seus erros e seus acertos.

Mas ando meio triste nos últimos dias.

E a tristeza existe não por viver em uma democracia que apenas engatinha ou por ser obrigado a votar em uma eleição. A tristeza existe por ver pessoas, algumas com as quais convivi, e até alguns amigos com quem me apraz discutir caminhos e rever conceitos, embarcarem em um trem desgovernado, carregado de ódio, de palavras chulas, agressões e ofensas de toda sorte para simplesmente justificarem as suas preferências político-partidárias. Para defender ou atacar um ou outro candidato, este ou aquele partido.

Somos todos sobreviventes de uma ditadura. Algumas mais, outras menos, outras não, mas como disse, pessoas lutaram para que chegássemos aqui. E por incrível que pareça, mesmo naquelas batalhas mais cruéis onde a palavra era bloqueada por fuzis e cassetetes, percebia-se algum respeito.

Os tempos são outros. A comunicação é outra, instantânea. As redes sociais e a aparente sensação de anonimato. As relações muito mais virtuais do que reais. A falta de contato físico, do abraço, do gesto, do olhar. Acrescente-se a isso tudo um batalhão cada vez maior e melhor remunerado de comunicadores raivosos a serviço de uns ou de outros, entronados em suas revistas, seus jornais, seus blogs, suas rádios, suas TVs, e suas igrejas, que a nada mais se prestam senão propagar e incentivar o ódio, a discriminação e até a justiça com as próprias mãos.

Precisamos repensar esse comportamento. Revisar padrões, rever modelos, resgatar o respeito e os bons modos. Todos nós. Eleitor, político, candidato, partido e mídia. Executivo, legislativo e judiciário.

A própria política não abriga inimigos e sim, adversários. É essa a sua arte.