quinta-feira, 28 de maio de 2015

Nada é por acaso




Passado

José Maria Marin iniciou sua carreira política em 1963, ano em que se elegeu vereador em São Paulo, filiado ao Partido de Representação Popular, fundado pelo integralista Plínio Salgado. Em 1969, tornou-se presidente da Câmara Municipal de São Paulo.

Na década seguinte, foi deputado estadual pela ARENA, proferindo discursos inflamados contra a esquerda e em defesa do assassino e torturador [delegado] Sérgio Fleury. Apoiou os movimentos que levaram à tortura, morte e desaparecimento de centenas de brasileiros. O mais notório deles foi publicado em 9 de outubro de 1975 no Diário Oficial do Estado de São Paulo. O texto criticava a ausência da TV Cultura na cobertura de eventos do partido e exigia uma providência para que a "tranquilidade" voltasse a reinar no Estado. Mais tarde, o discurso passou a ser visto como uma das causas que levaram à morte do jornalista Vladimir Herzog 16 dias depois.


Presente

O Brasil vive um momento conturbado. Brasileiros nas ruas e nas sacadas paneleiras, ainda que sem maturidade política, capitaneados por movimentos ultradireitistas como MBL e Vem Pra Rua, reivindicam o fim da corrupção, o fora Dilma e leve PT com você, e até a volta dos militares.

A galera resolveu se vestir de verde e amarelo e escolheu logo a camisa da seleção brasileira de futebol.

A CBF, entidade maior do futebol brasileiro foi presidida até bem pouco atrás por José Maria Marin. Ele assumiu o posto em decorrência da renúncia de Ricardo Teixeira que não suportou uma enxurrada de denúncias depois de 23 anos de “reinado”.

Já Marin encerrou seu mandato tampão em 2014, mas não largou o osso. Assumiu a vice-presidência.

Ontem, 27 de maio de 2015, o país amanhece com a notícia da prisão do ex-governador biônico, apoiador da tortura militar, ex-presidente da CBF, ex-executivo da FIFA, banido que foi de qualquer atividade relacionada ao futebol. A acusação? Corrupção.

No mesmo dia chegavam a Brasília alguns brasileiros que “caminharam” de ônibus até lá com o intuito de exigir a instalação do processo de impeachment da Presidenta Dilma. O já famoso “Fora Dilma e leve o PT com você”.

Todos integrantes e representantes da mesma turma que decidiu vestir a camisa da seleção brasileira de futebol.

Fonte de consulta: Wikipedia

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A velha mídia e a direita política estão doentes


Tomo a liberdade de reproduzir aqui um comentário que li em uma matéria do Jornal GGN, do Luis Nassif. No final do texto, o link.

Por Alexandre Tambelli
10.05.2015

A velha mídia entrou no jogo suicida da Direita política com todo afinco a partir da Eleição de 2002. E foi se emaranhando no meio desses nós que a oposição criou para si. Trocou a direita política um projeto mínimo que fosse de Brasil por uma subserviência aos interesses do capitalismo internacionalista e do mercado globalizado de capitais e por lá estão, apenas por lá.

Os políticos que minimamente tem um Projeto de Nação, que tem alguma visão nacionalista e patriótica ajudaram o PT até o primeiro mandato de Dilma. Hoje uma parcela maior dos conservadores da Direita e antinacionalistas cresceu no meio da Política legislativa e a velha mídia a representa mesmo sem a mínima lógica do porquê representa-la.

Por que a velha mídia os representa?

Porque ela é hoje, apenas, antipetista como muitos políticos da Direita.
E é preciso lembrar sempre: os antipetistas na Política são de maneira tão radical antipetistas que vale qualquer coisa mesmo mentir descaradamente e inventar denúncias e matérias, agredir verbalmente e até fisicamente e o que mais for necessário contra o Governo Federal, o PT e os petistas.

Neste processo todo da velha mídia e oposição, radicalmente contrários em tudo, ao Governo Federal emergiu, com força descomunal em 2014, no meio da população brasileira o eleitor antipetista extremado; ai quem era o mais radical antipetista ganhou votos e se elegeu nos legislativos em 2014.

Um Parlamento ultraconservador nasceu.

A população cooptada pela velha mídia e oposição formou uma imagem do PT como o "demo" e sem dúvidas votou nos bolsonaros, cunhas, telhadas, freires, aloísios, etc., os mais radicais antipetistas e votou convicta de que estava no caminho certo, para o seu próprio bem. Junte-se a este quadro o conservadorismo radical de parcelas significativas dos evangélicos e se tem como resultado a Câmara dos Deputados que temos. O voto maciço no antipetista mais radical o elegeu com uma votação expressiva.

Todo o antipetismo é incontrolável no meio da velha mídia e da oposição. Eles escolheram este caminho e se perderam num mundo paralelo, misturados em muitos casos à própria personalidade e ideologia do sujeito eleito ou que trabalha na velha mídia.

Hoje! Se o Governo Federal propõe  A eles votam B. Se for para ferrar o PT que se ferrem juntos até seus eleitores. E tornou-se esta situação uma doença incurável e incrustada na Direita e na velha mídia, onde a racionalidade se perdeu e deu o lugar para a violência verbal e física, ao ódio extremado, a ausência de limites éticos, ao término de qualquer relação humana entre diferentes opiniões e ideologias, ao personalismo e ao maniqueísmo, etc.

Hoje! Eles já não sabem mais como agir. Perderam-se dentro de mundo fantasioso que criaram e acreditam poder vencer o PT deste modo.
O que está acontecendo é que esta gente toda está ultrapassando os limites da convivência humana e a irracionalidade lhes acarreta um estado doentio: perdem o limite entre a razão e a loucura.

Vai acontecer em breve, na verdade já acontece, uma disputa interna entre estes próprios grupos pelo espólio de Poder (aqui falo dos políticos da Direita) entre as oposições.

Entendendo o que digo.

Todos vão lutar para ser a força (candidatura) das oposições em 2018.
PSDB e PMDB via Cunha vão se bicar e forte. Querem ocupar o mesmo espaço, mas com a sede de Poder, individualista de cada um, jamais sede coletiva. Juntando as brigas internas de Poder dentro das próprias legendas.

Vejamos que a Lava-jato tem uma imagem de PSDB no controle da mesma. Janot colocou o Eduardo Cunha e o Renan Calheiros do PMDB no meio da Lava-jato e livra o Aécio do PSDB. O Cunha e o Renan não estão aceitando isto com naturalidade. Votaram a PEC da Bengala como antídoto. Dai vai sair uma faísca enorme.

É o costumeiro processo de criação de uma cultura de se tornarem impunes, via velha mídia e Judiciário aliado que vai derrubar a oposição. Não vai se sustentar este pilar para sempre. A Justiça está chegando perto deles todos. Zelotes, HSBC, até a Lava-jato em se pesando a parcialidade do Juiz Moro, Agripino, etc. e inúmeras investigações Brasil afora, facilitadas pelo melhor aparelhamento da Justiça, pela ausência de um engavetador e pela disposição da Presidenta Dilma em investigar as ilicitudes públicas e privadas no Brasil dando autonomia aos órgãos da Justiça para trabalharem. Qualquer hora destas a Direita política e a velha mídia não escapam de uma condenação. Qualquer hora destas aparece um Tribunal e magistrados isentos pela frente sem medo de assassinatos de reputação via velha mídia e a casa cai.

A sociedade recobrando a sua lucidez e está este processo em andamento as coisas mudarão de figura. Os últimos protestos da Direita diminuíram muito. Aqui na Vila Mariana, bairro de classe média alta, no dia do Programa do PT, ouvi apenas uma panela bater. No dia do pronunciamento da Presidenta Dilma na TV em março eram centenas.

Quem vê os passos de uma CNBB defendendo a Reforma Política com Constituinte exclusiva e colhendo milhões de assinaturas por todo Brasil, dizendo-se contrária à diminuição da maioridade penal e contrária às terceirizações sabe do que digo.

Aos poucos o brasileiro acorda e vai para além desta loucura antipetista, não digo que virarão petistas, mas escolherão outro caminho, para além, PSDB, Bolsonaro ou Eduardo Cunha. Continuarão contrários ao PT, mas não a ponto de defender, por exemplo, Aécio Neves. Nas redes sociais já noto um maior silêncio do eleitorado aecista convicto de 2014. A PL das terceirizações e o radicalismo dos bolsonaros assustaram. O jeito meio medroso deste eleitorado, que se fecha em seu mundinho não combina com radicalizações, apesar de serem ideologicamente de Direita (meritocracia, estado mínimo, desejo de que se cobrem poucos impostos, etc.). Sem contar que a Direita e a velha mídia está se misturando (a imagem) com os políticos que querem mexer com direitos individuais e que nas classes médias tradicionais, muita gente desta Direita meritocrática não concorda.

O PT, sábio como é, fica na espreita vendo a Direita política perder o limite e brigar entre si. Fez o pacote do Levy, como disse o Mauricio Dias, logo de cara, se é para fazer que faça logo de cara, partido maquiavélico o PT, e agora faz pequenas bondades em doses homeopáticas e que vão aumentando aos poucos sua popularidade e recuperando seus votos. A oposição ao contrário vai colando na testa todo tipo de reacionarismo, oportunismo e violência, o que, como falei, assusta a classe média tradicional que não gosta de muito de ver agitações em sua realidade centrada na família, trabalho e lazer com os amigos.

Repetindo, ao se perderem no doentio antipetismo, velha mídia e oposição trilharam um caminho que os levou a aceitar como plausível toda e qualquer proposta e opinião da extrema-direita num vale-tudo que englobou até a Ditadura Militar e defensores da Pena de Morte. A conta uma hora será paga. E vamos ver esta conta sendo paga em breve.

A Presidenta Dilma, sabiamente, ficou em silêncio, manteve a sobriedade e não entrou neste conflito com/entre desesperados da Direita. Procura Governar o País com erros iniciais na composição ministerial e acertos no decorrer destas últimas semanas. Vai sair por cima desta batalha toda do (des) limite dos atos, da loucura tomando o lugar da razão em que se meteram velha mídia e oposição política. Suicídio coletivo.

Em 2018 teremos a vitória de Lula e o PT completará 20 anos no Poder. Eu acredito nesta afirmação.

E a Revista Época?

Ela é hoje o resultado deste processo, de uma publicação nascida sem a turbulência de um Governo FHC, porque a revista o apoiava, e em fase de extinção, hoje, porque apodrecida pela loucura crescente que se tornou a Direita no Brasil em busca de tirar o PT do Poder seja de que jeito for, mesmo que o Brasil quebre e que a sua população volte ao estágio anterior à Lei Áurea, ainda no Século XIX.

Vão ficar pelo meio do caminho, novamente e enfraquecidos ainda mais: velha mídia e oposição política.

Aécio, Cunha, FHC, PSDB & Cia. são quem podem entrar em extinção até 2018 e não o PT!


É nisto que acredito.

http://jornalggn.com.br/noticia/epoca-nao-consegue-inovar-e-repete-a-farsa

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Esquerda ou direita... negro ou branco... pobre ou rico?



De acordo com o IBGE, a população brasileira tem 50,7% de negros e pardos.  Ainda segundo o instituto, de 2003 a 2013, a renda da população negra e parda cresceu 51,4%. Não obstante, ela é hoje 57,4% da renda média da população branca. Metade, praticamente. Ou seja, negros e pardos ocupam maciçamente a ala pobre do país.

Há dados interessantes também quando o assunto é acesso à educação e à cultura. E para quem quiser se aprofundar um pouco mais, números sobre mortes por assassinatos, por faixa etária, renda e cor da pele.

Em política, especialmente a brasileira, não me apraz nominar “direita” e “esquerda”.  Ainda penso que nos falta ideologia.  Um sinal disso é que somos representados por mais de 30 partidos, criados na quase totalidade para atender pequenos guetos, apoderamento de verbas públicas a eles destinadas, e interesse em cargos políticos em todos os níveis de governo.

Também tão pouco me agrada essa ideia da divisão entre pobres e ricos quando o assunto é política. Embora óbvio seja que os interesses prementes de uns, pouco ou quase nada têm a ver com os de outros.

Quanto à cor da pele, o preconceito por tantos e tantas vezes declarado e estimulado é, de longe, o mais rasteiro sentimento humano. Aliás, não apenas o preconceito sobre raças e etnias. Seja lá de que tipo for, acho abominável.

Não escolhemos a primeira morada. A nossa gestação se dá sem que sobre ela possamos exercer algum controle. E a partir dela, geneticamente falando, somos o que somos. Pretos ou brancos, amarelos ou misturados, héteros ou homossexuais, fisicamente perfeitos ou não.

Socialmente falando, as transformações são possíveis. Não importa se coletivamente ou individualmente. O que Importa são as oportunidades proporcionadas ao indivíduo ou população. Portanto, dependentes do berço, do esforço individual e das políticas governamentais. Nesse processo só não cabe defender a famosa meritocracia como tal propalada comicamente, herança (quase genética), quando, certamente, sabemos tratar-se da realidade financeira de cada berço. 

Seja no Brasil ou na Finlândia, governar é governar. Não há distinção. É necessário haver políticas públicas que atendam as necessidades do país e de sua população.

Direita ou esquerda, negro ou branco, pobre ou rico. Esses carimbos, por vezes, acabam patrocinando uma discussão que beira ao surrealismo. Como se possível fosse reduzir tanto assim a grandiosidade da vida humana, e a partir daí determinar o que merece um branco, um negro, um amarelo, um pobre ou um rico.

Ao longo da minha vida muitas vezes tenho sido identificado como alguém de esquerda. Pode ser. Porém, por consciência, jamais defenderia a esquerda pela esquerda, simplesmente. Como também não me abstenho de criticar as falhas cometidas por governantes de esquerda. De tal forma, considero razoável que semelhante postura valha para as pessoas de direita.

Defendo sim, e sempre, o ser humano, povo, gente. Por consequência, defendo a participação popular. Mais, diria. A participação é um dever de cidadania. E entenda-se como participação não apenas o ato de comparecer a um manifesto qualquer. É no sentido amplo. Nas discussões de agendas públicas e políticas, de ações governamentais, de direitos e deveres constitucionais, e por aí vai. Abordando questões municipais, estaduais ou federais. Vestidos de verde e amarelo, de vermelho, de preto. Caras pintadas ou não. Convocados por uma central sindical, por uma emissora de televisão com concessão pública ou por grupos atuantes nas redes sociais. E sempre com espírito público, com civilidade e respeito e, se possível for, com bandeiras que promovam o bem coletivo.

Parece simples, não?

Parece, mas não é. Ou é, mas não parece.

Hoje, passadas as duas manifestações recentes (15 de março e 12 de abril), durante algumas horas eu me pus a pesquisar um vasto material fotográfico disponibilizado na mídia.

A intenção de quem delas participou é a mesma. Embora a segunda tenha levado um público menor às ruas, teve o mérito de se espalhar por mais cidades e regiões.

O objetivo da pesquisa foi apenas a curiosidade de identificar a cor da pele dos manifestantes presentes. Para a minha (não) surpresa, até em cidades como Salvador, onde a população negra ou parda supera as estatísticas do IBGE, a esmagadora maioria é branca. Há de se prestar muita atenção para encontrar alguém diferente disso.

Tão pouco me surpreenderia se alguma pesquisa apontasse também que a mesma maioria esmagadora está fora daquilo que poderíamos classificar como população pobre.

Eu deveria dizer que não aprovo a pecha de "elite branquinha". Que discordo frontalmente. Se alguém afirmar que tais manifestações são patrocinadas por ela, cometerá um grave erro na medida em que isenta ou exclui vários outros grupos de interesse. Saudosos dos militares, militares saudosos da ditadura, maçons, TFP, nazistas e fascistas (não pela opção e sim pelo comportamento muitas vezes violento) políticos oportunistas, orgulhosos empresários, e até pequenos grupos de pessoas correndo atrás dos seus cinco minutos de fama (com ou sem nudismo).

Bem, diria você:

- Mas porque aqui nestas nossas bandas tropicais tupiniquins, raramente vemos negros (ou pobres, em alguns casos), participantes dos citados grupos de interesse?

Bem...

E o que isso tudo significa?

PS.: Manifesto aqui a minha discordância em relação ao Partido dos Trabalhadores e seus representantes quando usam o termo "elite branquinha" para minimizar a importância das manifestações. Um eleitor pode até fazê-lo, mas o partido e seus políticos eleitos não.

Eduardo Galeano


A cada ano, os pesticidas químicos matam pelo menos três milhões de camponeses.
A cada dia, os acidentes de trabalho matam pelo menos dez mil trabalhadores.
A cada minuto, a miséria mata pelo menos dez crianças.
Esses crimes não aparecem nos noticiários. São, como as guerras, atos normais de canibalismo.
Os criminosos andam soltos. As prisões não foram feitas para os que estripam multidões. A construção de prisões é o plano de habitação que os pobres merecem.

Há mais de dois séculos, se perguntava Thomas Paine:

– Por que será que é tão raro que enforquem alguém que não seja pobre?
Texas, século XXI: a última ceia delata a clientela do patíbulo. Ninguém pede lagosta ou filet mignon, embora esses pratos apareçam no menu de despedida. Os condenados preferem dizer adeus ao mundo comendo hambúrguer e batata frita, como de costume.

Extraído do livro Espelhos: uma história quase universal, publicado pela L&PM Editores.

terça-feira, 31 de março de 2015

Defender a PETROBRAS é defender o Brasil

No dia 5 de fevereiro, 15 anos depois da tentativa do Governo FHC de alterar o nome da Petrobras para Petrobrax, com o objetivo de unificar a marca e facilitar seu processo de internacionalização, uma nova investida contra a integralidade da companhia surge no Senado.
O Senador José Serra, valendo-se da crise e turbulência resultante da operação Lava-Jato, recoloca a velha política privatista e antinacional.
Segundo o Senador:
“A Petrobras tem que ser refundada. Mudar radicalmente os métodos de gestão, profissionalizar diretoria, conselho administrativo e rever as tarefas que exerce. Sua função essencial é explorar e produzir petróleo. No Brasil, a Petrobras diversificou demais e foi muito além do necessário, acabou se lançando em negócios megalomaníacos e ruinosos. Hoje, ela atua na distribuição de combustíveis no varejo, nas áreas de petroquímica, fertilizantes, refinarias, meteu-se em ser sócia de empresa para fabricar plataformas e investiu até em etanol, justamente quando a política de contenção de preços da gasolina arruinava o setor. O que dá prejuízo precisa ser enxugado. Vendido, concedido ou extinto”.
Os argumentos apresentados demonstram o completo desconhecimento da realidade da indústria petrolífera mundial e de suas tendências. Por diversos motivos, merece resposta a proposta de vender os ativos de refino e distribuição para fazer caixa e financiar a produção de óleo como solução às presentes dificuldades da Petrobras.
Desconsidera-se por completo a natureza e especificidade desta indústria, e não se trata de uma indústria qualquer. Não por acaso, em quase todos os países, a maior empresa é sempre uma petroleira.
No Brasil, esta indústria representa 15% dos investimentos e 10% do PIB. Por fim, petróleo é energia e base da química moderna: sem eles, não há soberania para um país do tamanho do Brasil.
O Senador desconhece conceitos técnicos básicos desta indústria, como o “custo de transação”, ou que o valor, para ser gerado, necessita ser extraído e realizado, daí por que a integração é imprescindível para uma grande petroleira.
Durante a década de 90, o objetivo foi “enxugar” a Petrobras, para, em seguida, vendê-la ao melhor preço. Foi o pior momento da estatal em sua história, iniciado na curta Presidência de ColIor e concluído pelo Presidente FHC ao longo de seus dois mandatos.
Além dos baixos indicadores de extração, produção e refino, registraram-se também três resultados profundamente negativos:
I) o início das dificuldades da indústria química brasileira, ainda hoje a sexta maior do mundo graças à base construída anteriormente, porque nada mais foi feito;
II) a deterioração da qualidade dos combustíveis automotivos, que, em 1999, chegou a um quinto de não conformidade em cada litro de gasolina vendido na cidade de São Paulo; e
III) a deterioração dos padrões de segurança operacional na Petrobras entre 1999 e 2002. Resultou em dois naufrágios, com numerosos óbitos, e dois acidentes ambientais que se tornaram os piores da história da companhia.
Entre as dez maiores empresas petroleiras de capital aberto, somente uma optou por se separar do refino e venda de derivados para se concentrar em E&P (exploração e produção) nos últimos 10 anos. Todas as demais são integradas, assim como as maiores empresas do setor controladas pelo Estado.
As majors, supermajors e grandes estatais produzem do poço de petróleo à bomba de gasolina. Apenas as independentes norte-americanas e as médias empresas petroleiras, espalhadas pelas diversas bacias sedimentares produtoras no mundo, não dispõem de meios para refinar o que produzem; justamente porque não têm caixa para fazê-lo. Será que todas elas estão erradas e só a ConocoPhillips acertou?
A despeito da notória incapacidade dos economistas para prever o preço do petróleo, o capital petrolífero não costuma errar suas estratégias e seus cenários. Esso, Shell, Total e BP são empresas centenárias; sobreviveram a várias crises.
Pemex, Aramco, PetroChina, Statoil, Ecopetrol e Petrobras, pelo lado das estatais, em pouco mais de meio século, apoiadas em uma crescente capacidade de refino e distribuição, içaram-se como as maiores competidoras, num oligopólio antes dominado pelas Sete Irmãs.
Embora incapazes de saber qual será o preço futuro, todas elas entenderam que o preço do petróleo é cíclico; na verdade, profundamente cíclico.
Para sobreviver aos ciclos e, a despeito deles, continuar a crescer, o capital se aproveita de outra especificidade da indústria: não se abastece carro com petróleo. Depois de achado e extraído, é preciso transportá-lo, refiná-lo, armazenar seus derivados e distribuí-los, para somente depois ter seu uso final.
A cada etapa, gera-se valor, e é a coordenação de uma série complexa de atividades diferentes que permite a transformação do mineral num fluxo quase contínuo. É a integração das partes que permite à petroleira se apropriar do valor gerado ao longo de toda a cadeia de produção. E o somatório final não é pequeno.
Ajudadas pelo aumento de preço, como na última década, jamais as petroleiras lucraram tanto, e não foi diferente para as estatais.
A integração do poço à bomba, além disso, permite proteger-se durante as baixas. As petroleiras apreenderam muito cedo que, quando o petróleo está com preço vil, elas ganham na venda de seus derivados (que são muitos) e na sua transformação química. Não é a toa que todas as grandes empresas do setor têm refinarias, meios de transporte e distribuição próprios.
Além disso, Esso, Chevron, Shell, BP e Total dispõem de importantes plantas petroquímicas. O mesmo acontece entre as grandes estatais e, em particular, na China e no Próximo Oriente.
É fácil entender a lógica da petroleira: a perda a montante será compensada pelo ganho a jusante. Em particular, com matéria-prima barata, o refino e a petroquímica geram enormes lucros.
Basta ver o que aconteceu nos últimos anos nos EEUU: um quarto de seu crescimento se deveu ao barateamento do gás natural e excesso de condensado decorrente.
O movimento de queda nos preços do petróleo já era sentido pelas grandes petroleiras. A reestruturação em curso será profunda, e, como nas baixas anteriores, o resultado será uma maior concentração, com o desaparecimento dos competidores mais fracos e menores.
Aquele capital petrolífero, que depende apenas da produção de um ou dois campos, que está na fronteira da tecnologia, que produz não convencionalmente, ou que não tem como valorizar seu petróleo, seja sendo refinando-o, seja transformando-o em produtos de base para a petroquímica, será o primeiro a ser afetado. E estejam certos de que os oportunistas e as empresas gigantes saberão aproveitar a ocasião de liquidação dos ativos para fortalecer suas posições.
Uma onda de fusões e aquisições se avizinha, e, pelo visto, querem que a Petrobras esteja do lado das vendedoras e perdedoras. Os vencedores serão sempre os mesmos: aqueles que, há mais de um século, são capazes de desenhar uma estratégia contracorrente e avançar em tempos de crise.
Desfazer-se do refino e distribuição, a esta altura, seria um erro estratégico primário, como foi visto. Seria também entregar um ativo construído depois de mais de meio século a um preço necessariamente baixo.
Pior, seria permitir que, por vias tortas, o capital externo — o único que teria condição de adquirir as instalações — assumisse ativos que fazem a Petrobras ser a maior distribuidora de combustíveis automotivos do País, fornecedora da quarta (ou quinta) maior frota de veículos no mundo e sexta maior petroquímica. E o País ainda importa dois terços dos fertilizantes que utiliza em sua agricultura.
A Petrobras, mesmo sob fogo cerrado, acumulou em 2014 êxitos operacionais: a produção de petróleo e gás alcançou a marca histórica de 2,670 milhões de barris equivalentes/dia; o pré-sal produziu em média 666 mil barris de petróleo/dia; a capacidade de processamento de óleo aumentou em 500 mil barris/dia; a produção de etanol etanol cresceu 17%, para 1,3 bilhão de litros. Em setembro de 2014, a Petrobras tornou-se a maior produtora mundial de petróleo entre as empresas de capital aberto, superando a ExxonMobil (Esso).
Restringir-se à exportação de óleo bruto e não valorizar a crescente produção é um retrocesso histórico, um absurdo em termos de política industrial e um crime ao patrimônio nacional.
Do pau-brasil ao café, passando pelo ouro, pelo açúcar e pela borracha, o Brasil sempre esteve condenado à periferia, exportando produtos com baixo valor agregado.
Na condição de um “quase” Estado extrativo-exportador por cinco séculos, esteve submetido aos sucessivos ciclos econômicos em razão da inação de suas elites.
O petróleo é a oportunidade de se mudar positivamente a história econômica do Brasil, mas, pelo visto, parte da elite (por desconhecimento, ou má-fé) atua intensamente para desmantelar a Petrobras e não permitir que o desenvolvimento nacional.
Em defesa da Petrobras e da sua integralidade!
www.viomundo.com.br