terça-feira, 7 de maio de 2013

Papagaio de pirata


                                                                           Wikimedia Commons

São inúmeros e inegáveis os benefícios que as redes sociais nos trouxeram. Do simples prazer de compartilhar uma foto, ao lucro proporcionado por negócios que nesse ambiente prosperam.

Mas cá entre nós, é terrível ver como a grande maioria de nós ainda não aprendeu (será que conseguiremos?) a fazer melhor uso desses canais interativos.

O que mais me irrita é ver tanta gente distribuindo notícias, citações, opiniões, sem o menor critério. Fazem apenas transbordar os espaços disponíveis, tomando como verdades absolutas o que viram ou ouviram.

Preponderantemente, essa turma se divide em dois grupos. O primeiro, daqueles que não se preocupam em fazer uma rápida pesquisa na internet para confirmar a veracidade do(s) fato(s). O segundo, dos que, ávidos por externarem suas opiniões, preferem se valer da opinião alheia ao invés de mergulharem um pouco mais fundo no conhecimento.

Verdadeiros papagaios de pirata.

sexta-feira, 22 de março de 2013

segunda-feira, 18 de março de 2013

Com Drummond


É poeta, envelhecer é mesmo uma merda!

Mas...

Apesar das pedras no meio desse caminho, poder apreciar cada singelo momento da vida e agradecer sempre, seja lá a quem ou o que for o responsável, é algo muito especial.

A vida me tornou grato a tudo e tanto que me permitiu. Que me permitirá.

Da água que toca o meu corpo, ao amor que acalenta a minha alma.

Do sorriso que espreito num rosto qualquer, ao colo da mulher amada que acolhe meu corpo cansado.

Do sol que aquece as frias manhãs, à neve que teimosamente se debruça sobre galhos esguios.

Do vinho que saboreio, aos temperos que dão sabor à minha comida.

Dos orgasmos que já foram muitos, aos orgasmos que hoje nem tantos, mas ao abrigo do amor, muito mais intensos.

Das lágrimas que verto, às lágrimas que acolho.

Dos versos que leio, aos versos que insisto em parir.

E sempre movido a vida!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Boate Kiss - Uma reflexão


Por respeito, peço permissão a todas as famílias e amigos das mais de 230 vítimas do lamentável episódio.

Sempre que ocorre um evento de proporções absurdas como o incêndio na Boate Kiss em Santa Maria (RS) - com a perda de tantos jovens mal iniciando a vida - começam a aparecer as cobranças às autoridades, o descontentamento com as instituições, os xingamentos daqueles que se sentem traídos por políticos, policiais, bombeiros... Surgem também os iluminados de plantão, que se julgam conhecedores de tudo.

De outra parte, as autoridades correm para anunciar uma operação de fiscalização em casas noturnas e locais de grande aglomeração nas cidades. Algo que a princípio entendemos como positivo, mas que na verdade deve ser rotina, ato permanente.

É quando o óbvio se torna óbvio.

Nada contra. Tanto de um lado quanto de outro. Embora tardiamente, a fiscalização é bem-vinda. E quanto a nós cidadãos, devemos exercer os nossos direitos.

Quando falamos em cidadãos, incluímos também aqueles detentores de cargos políticos em todas as esferas de poder e os servidores públicos que respondem diretamente pela nossa segurança e bem-estar. Muito embora quase todas essas figuras ajam como se cidadãos não fossem.

Vivemos no Brasil. E por aqui parece mesmo que uns são mais ou menos cidadãos do que outros. Para alguns, apenas os direitos. Para outros, apenas os deveres. E carregamos todos nós a mesma dosagem tanto de um quanto de outro. Pode até parecer absurdo, mas há quem pense que não tem a obrigação de fazer valer os seus direitos (posto que me pertence, faço uso como e quando quiser). Só que, na medida em que abrimos mão, criamos brechas para que pessoas e/ou instituições pouco transparentes ou inescrupulosas possam se beneficiar. Já uma outra parte se esquece que a mesma determinação em exigir direitos vale também para o cumprimento de deveres. Em resumo, o cidadão tem o dever de fazer valer os seus direitos e a obrigação de cumprir com os seus deveres.

Somos a terra do “jeitinho”. Gostamos e queremos sempre levar vantagem. Achamos que aceitar propina não é crime, jogamos lixo na rua e depois choramos por ter perdido tudo com a forte chuva. Fingimos de égua quando a conta do bar, do restaurante, da boate ou seja lá o que for vem com valor abaixo do que foi efetivamente consumido, não devolvemos o dinheiro do troco a maior, e consideramos normal nos apoderarmos de um celular encontrado na rua (achado não é roubado). Transgredimos leis, estacionamos em fila dupla, utilizamos vagas destinadas a idosos e deficientes, e por aí vai.

Bandidos não nascem como tal. São transformados nisso. Se existe um "dono de boate" que não se preocupa com segurança, existe um “povo” que não se dá ao direito de se preocupar com isso e de se fazer respeitado como consumidor. Falta-nos essa cultura. Se existe um fiscal de prefeitura que concede alvará de funcionamento mediante propina é porque existe um "dono de boate" que acha normal pagar propina. O corruptor não sobrevive sem o corrupto e vice-versa. Falta-nos educação, vergonha na cara e honestidade. A educação (formal) não depende apenas do indivíduo, mas a honestidade e a vergonha vêm de berço. E de berço acalantado por pai e mãe e por governantes. Quando tivermos isso tudo, talvez nem tenhamos de cobrar de nossas autoridades, posto que elas saem da população, são crias da mesma mãe e do mesmo pai.

E deixo aqui para todos nós cidadãos, sem exceção, algo para refletir.

Atribuir responsabilidade exclusivamente aos governantes e àqueles investidos de poder para outorgar e fiscalizar não é também se desincumbir da própria responsabilidade?

Dos direitos, a grande maioria se lembra. Já os deveres... Bom, isso não é comigo! 

domingo, 26 de agosto de 2012

Pescaria em Alta Floresta MT



Desta vez, a Turma Mesa Hum voou para bem longe. Fomos para a Pousada Santa Rosa, no Rio Teles Pires. E bota longe nisso! Só para chegar a Alta Floresta, quase seis horas, incluindo o tempo com escalas em Brasília e Cuiabá.

A maioria de nós chegou na sexta-feira e se hospedou no Floresta Amazônica Hotel. Mas, antes mesmo de chegarmos ao hotel, fomos levados à casa do Silvio que já nos esperava no desembarque. Irmão do nosso companheiro Serginho, ele reside na cidade há 10 anos.


Tudo perfeito. Silvio e Miriam, os três filhos e as noras, nos proporcionaram ótimos momentos. Além de toda gentileza e simpatia, um almoço delicioso. Não bastasse, no sábado ainda tivemos um churrasco na casa de um dos filhos, o Cristiano. Até carne de paca (criada em cativeiro) foi servida. E, claro, muita cerveja bem gelada, porque o calor não nos dava trégua.


No domingo pela manhã embarcamos em aviões menores que nos levaram à pousada na beira do rio. Foram 40 minutos de voo sobre a floresta amazônica, um verdadeiro deleite para os nossos olhos. Sempre sobrevoando o Rio Teles Pires. E de repente, em meio a tanto verde, surge uma clareira abrigando uma pequena pista de pouso e a estrutura da pousada. Nada mais além da mata fechada e muita água.


A Pousada Santa Rosa fica a 160km da cidade (em linha reta), na margem esquerda do Rio Teles Pires que separa os estados do Mato Grosso e Pará. Um pouco mais acima, a noroeste, está o estado do Amazonas.



Tudo perfeito. Atendimento de primeiro mundo, copo sempre cheio, comida deliciosa. Um caldo de piranha beirando a perfeição. E peixe... Muito peixe, diariamente. Tanto no prato quanto no anzol.


Como em toda pescaria dessa turma, não faltou emoção. Quer seja pela quantidade e tamanho dos peixes ou mesmo um susto maior, quando Carlito, às 6:15h da madrugada, resolveu testar a robustez do concreto da passarela que dá acesso aos barcos.  E entre o cimento e o supercílio dele, ganhou o primeiro, claro. Mas, felizmente, nada grave.

No truco, Lalau levou a pior (há quem diga que é sempre assim...  rs). Diz ele que se lembra de algumas poucas vitórias. Já as derrotas ficam por conta de quem ganhou contar.

O maior peixe, desta vez, coube ao Márcio: um jundiá de 88kgs. Sim, isso mesmo! Não é mentira de pescador. Ao arremessar a isca artificial ele se vingou do Gilberto, seu companheiro de barco. Fisgou-o pelas costas. E foi tão bem fisgado que precisou ser levado ao posto médico da reserva indígena localizada rio acima. Lá, Dr. Serginho cuidou de retirar a garatéia.


Paulo Dias levou uma garrafa de cachaça de Ponte Nova, a Baltazar. E no nosso barco ela acabou se transformando em um hit. Sempre que os peixes demoravam a dar o ar da graça, tomávamos uma dose e cantarolávamos: Baltazar, Baltazar, tira logo essa uruca e traz os peixes para cá!




Foram 5 dias e meio de pescaria. Muitos e variados peixes, cerveja gelada, boa comida, paz pra alma e, como sempre, o prazer imenso de conviver com pessoas tão especiais.

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Floresta Amazônica Hotel
www.fla.com.br

Pousada Santa Rosa
www.pousadasantarosa.com.br

terça-feira, 17 de julho de 2012

Sexo casual


Dia desses, conversando com o meu pai, o assunto “sexo” entrou na roda. Disse-me que no seu tempo (ele tem hoje 60 anos) transar entre amigos (ou sexo casual) passou a ser algo comum. Vale ressaltar que a sua memória remonta aos anos 1970 e tinha como ambiente o meio universitário.

Bem sabemos que até então havia uma repressão muito forte aos costumes. A regra para as mulheres era esperar o casamento para iniciar a vida sexual. Já os homens, quase que sem exceção, davam os primeiros passos nessa direção valendo-se das famosas “zonas” e suas mulheres de “vida fácil”.

A década ficou marcada pela “revolta dos sutiãs”, com movimentos feministas eclodindo mundo afora. Entre nós, não podia ser diferente, as primeiras marolas foram bater no meio universitário. O que até então era guardado no íntimo de cada pessoa passou a ser discutido, questionado e barreiras começaram a ruir.

Foi nesse clima que fazer sexo com amigo (a) ganhou ares de normalidade. Afinal, para que exigir laços sentimentais? Bobagem, bradava-se. E não precisou mais do que uma década para que tal pensamento ultrapassasse os muros das universidades.

Para papai, que vivenciou esse processo, algo se perdeu pelo caminho. Com um olhar no passado, devo concordar. No afã de se romper com um modelo rígido e machista, caminhou-se de um extremo ao outro.

Permitam-me um parêntese. A meninada de hoje não tem a exata noção do quão difícil era o tema “sexo” naquele tempo, bem como as consequências decorrentes de sua prática. Especialmente para as mulheres. Aquelas que se arvoravam e decidiam abrir mão da virgindade antes do casamento acabavam enfrentando toda sorte de preconceito, tanto dentro como fora do âmbito familiar. Não raro jovens mulheres eram colocadas para fora de casa apenas por isso - sem falar de gravidez acidental. Entre os homens, machistas em sua grande maioria, casar com uma companheira que tivesse iniciado a vida sexual antes, era uma vergonha. Impensável.

Algo precisava ser feito. E foi. Porém, percebe-se que o ponto de equilíbrio ficou mesmo para o futuro. Não era motivo de preocupação. O importante era soltar as amarras, desprender-se, libertar-se.

40 anos passados, duas gerações depois, vivemos hoje numa sociedade sem limites quando o tema é a prática sexual. A galera, cada vez mais cedo, e mesmo sem o conhecimento e maturidade necessária, começa a frequentar essa praia. Fontes de informação não faltam. O problema é que são em número ainda maior as fontes de estímulo ao erotismo.

Papai não sabe dizer se isso é melhor ou pior. Sabe apenas que é diferente. Tem consciência de que não dava pra viver sob a mordaça da hipocrisia, da repressão comportamental. Mas afirma - com autoridade de quem viveu naquela época - que é preciso se buscar, mais do que nunca, o meio termo. O meio do caminho, o tal do ponto de equilíbrio. Permitir-se, usufruir do que é bom e natural, mas ter sempre à vista um “manual de bons costumes” e muito, mas muito critério.

Pensei muito sobre isso. Pense você também. Logo teremos os nossos filhos. E com eles, o duro papel de educador. E se a nossa geração ainda não encontrou o ponto de equilíbrio, será dos nossos filhos essa importante missão.

Texto: Anna Hill, 20 anos.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Meu filho não merece nada!

A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada.

Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.


Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

ELIANE BRUM, Jornalista, escritora e documentarista.